"- Eu não acredito em casamento..."
Olhos arregalados de espanto e indignação. Uma das minhas amigas, noiva, escondeu inconscientemente a mão com a aliança dourada embaixo da mesa apavorada enquanto a outra me olhava com desaprovação, como se eu tivesse gerado um mau agouro. Por um momento, eu me senti na Idade Média dizendo "Eu não acredito em Deus..." e quase pude sentir o calor das chamas da fogueira.
Os homens à mesa me olharam com aprovação, comentando algo mais à favor, enquanto elas pareciam perplexas com a minha "traição".
Ainda tentei me explicar, como se eu realmente tivesse dito alguma ofensa, mas uma delas encerrou o assunto dizendo, ainda com ar de desaprovação, que cada um pensa de um jeito.
Saímos da conveniência em grupos, eu ainda prolongando um pouco o assunto com os rapazes, dessa vez falando baixinho, e elas um pouco pra trás, num clima meio "Queimem as bruxas"...
E, desde ontem (quando isso aconteceu), eu venho pensando sobre isso...
Eu, como sonhadora nata, sempre me imaginei casando, construindo uma familia e envelhecendo ao lado de alguém. A idéia de "até que a morte os separe" é muito bonita.
Mas, de uns tempos pra cá, eu tenho percebido que não acontece bem assim.
Primeiro porque as pessoas sempre têm essa ilusão de que o casamento é algo fácil, que é só ter "amor" que tudo dá certo... Ninguém pára pra pensar que compromisso está diretamente ligado a esforço. Sim, esforço e tolerância para conviver ao lado de uma mesma pessoa, com suas mesmas manias e chatices e defeitos pelo resto da vida... Convivência é algo complicado e é suportando ela que nasce o amor de verdade. Meu parâmetro de comparação é a própria convivência com a minha familia. Tem dias que é uma droga! Tem dias que eu quero ir embora e nunca mais voltar. Mas, no final das contas, mesmo com as brigas, os defeitos enormes e as diferenças, eu amo eles. Esse é o amor genuíno. Amor é tolerância, tolerância é esforço e casamento é rotina.
Ah, a rotina! Trabalho, contas, filhos, sexo, contas, mais contas, trabalho, trabalho em dobro, filhos, sexo, filhos, filhos, contas. É por isso que divórcios ou casamentos abertos são infelizmente cada vez mais comuns, nós simplesmente não suportamos viver de rotina.
Me mostre alguém que diga com toda a sinceridade que, em mais de 10 anos de casado, é plenamente feliz com seu casamento. É sério, estou pedindo de verdade que alguém devolva minha crença plena nessa união!
Não que eu vá vestir aquela camiseta com o desenho de dois noivos escrita "Game Over" e ser solteira o resto da vida... Eu sei que talvez eu venha a me casar algum dia, não sou hipócrita de dizer que nunca mais vou considerar essa possibilidade. Mas isso só vai acontecer quando eu puder trocar juras que ambos, de fato, irão cumprir com tolerância, respeito e compromisso e não palavras melosas ao vento.